Um exemplo de péssimo jornalismo
Ao ler a edição do jornal O Globo de 8 de maio de 2008, deparei-me com algo que só consigo classificar como uma rotina absurda: a total ausência de critérios para publicação de matérias em que pessoas públicas são acusadas ou vinculadas a supostas irregularidades sem qualquer chance de defesa. Já tive a oportunidade de dizer e repito: sempre acreditei que um dos princípios do jornalismo saudável e imparcial era ouvir todos os citados em qualquer texto antes de sua publicação. Infelizmente, o que li no Globo foi um exemplo de péssimo jornalismo.
Sob o título “Diretor do BNDES libera verbas e vai às festas”, o jornal O Globo faz graves insinuações sobre a lisura do comportamento profissional do diretor de Inclusão Social e de Crédito do BNDES, Élvio Gaspar, sem ter se dignado a ouvi-lo e sem apresentar provas. Na mesma página, em matéria intitulada “Início da carreira teve confusão com Garotinho”, O Globo vincula meu nome ao do diretor do banco.
Em primeiro lugar informo que não exerço qualquer tipo de “apadrinhamento político” de quem quer que seja, nem sou advogado de defesa do diretor Élvio Gaspar. A trajetória profissional de Élvio Gaspar se deve a seus próprios méritos, que tem capacidade, por si mesmo, para exigir a reparação dos danos morais, pessoais e profissionais causados pela matéria assinada pelos repórteres Chico Otávio e Liana Melo. Quero reiterar que não sou advogado de defesa de Élvio Gaspar, mas faço questão de afirmar que sou amigo dele há muitos anos e o respeito pela competência, espírito público e postura ética, virtudes que a matéria tenta macular sem apresentar quaisquer comprovações.
Em seguida, protesto de forma veemente contra o “denuncismo”, prática que prejudica não só os “denunciados” como também o próprio veículo que a exerce. E, por último, prejudica o leitor que paga para receber informação correta, mas acaba levando apenas um amontoado de ilações e preconceitos de natureza ideológica. As matérias publicadas são exemplos perfeitos dessa minha afirmação. São matérias maliciosas com o intuito de induzir o leitor a acreditar na existência de irregularidades sem fornecer provas.
Em momento algum, tanto o diretor Élvio Gaspar quanto eu, fomos procurados pelos repórteres Chico Otávio e Liana Melo, nem por qualquer outro profissional do jornal O Globo, antes da publicação das matérias. Não nos foi permitido contra-argumentar, contestar as inverdades ou, tão somente, exercer o direito de expor nossas versões ou opiniões sobre os fatos em questão.
Eu pergunto que jornalismo é esse. Onde o jornal O Globo pretende chegar ou que fins pretende atingir com o exercício do “denuncismo” e do enxovalhamento de pessoas públicas? Não acredito que seja apenas um meio para impulsionar vendas, pois uma empresa financeiramente sólida e de boa reputação editorial não precisa desses recursos para conquistar novos leitores ou manter os atuais. Efetivamente é um mistério que não consigo decifrar.
Tenho ainda muitas indagações. Uma delas é o porquê de as matérias usarem e abusarem da palavra “petista”. Outra: por que os jornalistas não informaram que o prefeito de Praia Grande é do PSDB e que os prefeitos do Paraná são de diversos outros partidos? Se o tivessem feito, teriam dado uma demonstração cabal do espírito público do BNDES e do diretor da instituição.
Mais uma: qual a ilicitude cometida por um diretor do BNDES ao comparecer a assinaturas de contratos, tachadas pelos jornalistas como “festas”? A meu ver, o uso da palavra “festas” não foi gratuito. E mais uma outra: por que alguém não pode contribuir com recursos financeiros de seu próprio bolso, e oficialmente declarados à Justiça Eleitoral, para uma campanha política?
Acredito que o único grande “defeito” de Élvio Gaspar, na opinião dos jornalistas que assinaram a matéria, é o fato de ele ser filiado ao Partido dos Trabalhadores. Caso ele fosse filiado a qualquer outro partido, os repórteres Chico Otávio e Liana Melo deixariam transparecer tanta “indignação” no texto que escreveram?
São muitas as perguntas sem resposta. A principal delas, contudo, é a que diz respeito à ética e que afeta diretamente a credibilidade de alguns órgãos da imprensa.
Quando a rotina absurda de acusar sem provas e negar o direito de defesa vai ter fim?
Jorge Bittar – deputado federal PT/RJ
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